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quinta-feira, 26 de março de 2009

Navegar é Preciso



Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

**
Um pequeno texto de Fernando Pessoa que aprecio muito. Ele me diz de tudo um pouco. E a você? O que te diz o texto? Navegar é preciso!
A inspiração estava neste blog e acabei achando esse poema e recordando um pouco dele: http://olegario.wordpress.com/

sexta-feira, 6 de março de 2009

Diário de rosas brancas - II

O catador

Eu sentei em um banco da pracinha minúscula, li um pouco de Fernando Pessoa. Quando terminei uns Três poemas dele, deixei o livro de lado e observei toda a agitação daquela cidade. Abri meu caderno e fiz este desenho:

É o desenho de um homem que a pouco vi passar. Não vi seu rosto. Não sabia seu nome. Tudo que eu sabia é que ele era catador. Tudo que eu sabia é que para quem vem daqui, ele não é ninguém. Ele não tem rosto. Mas para ele, que vê como ele só vê, empurrar aquele carrinho é um fardo. Todo dia, empurrar o mesmo carrinho, reciclar papelão e latinha. E sem reclamar. Essa é sua única forma de alimentar sua família que dorme embaixo da ponte.

Ele não teve oportunidade, como muitos homens daqueles enormes prédios tiveram. Tudo o que conseguiu foi isso, por não ter oportunidade. Para ele, aqueles arranha-céus eram pequenos, só pela importância que tinham pra ele.

Reciclava seu papelão, um trabalho até ecológico, mas cansativo e que alimentava a sua família que estava com frio e fome embaixo da ponte. E saia. Não pensava em outra vida. Não tinha tempo para pensar. O mais importante era ele e a família, e todo o resto ignorava. Exceto o céu cheio de nuvens cinza, que era a hora dele parar de catar. Mas o que importava? Já que tudo para ele é cinza. As suas estrelas não brilham. Seu céu não tem luar.

E isso foi tudo que dele vi passar, e tudo que vi em seu rosto, sem poder enxergar.

Parte I - http://contosdesofie.blogspot.com/2008/07/dirio-de-rosas-brancas-i.html
Por: Sofie Simons Bardot (pseudonome)