Música: - L'ombre et la lumière - Coralie Clement (uma música doce para pequenas tragédias)Depois de dar o ar aos acordes, a dama de vestido branco, brincos dourados e pulso perolado, desce do palco. Em meio a aplausos febris, ela acena para todos. Levanto-me para ajeitar a sua cadeira. Ela oferece mais sorrisos e cumprimentos aos senhores e senhoritas que também se levantam em nossa mesa.
Ela lança seu olhar delicado e negro para mim e depois os fecha. Assim, subitamente. No último suspiro, ela é lançada no chão, chega a cair com certa graça. Seus cabelos cor de canela se espalham esvoaçados, dando vida às ondas de seus quase cachos. Ela caiu aos meus pés;
Todos a cercam, sem saber o que aconteceu. Sua mão sobre o busto e a boca entreaberta, não era um desmaio qualquer. Sou empurrado para trás pelos fotógrafos, que só abrem caminho para o médico passar.
O doutor a examina e abre seus olhos, verifica o pulso, e dá por fim a sentença: Marílie está morta! Ele a cobre com um pano diáfano e verde, e os enfermeiros a tiram logo dali.
Não pode ser! E não o era. Chego a casa e descubro que eram tudo fingimentos. Coisa de diva cansada, que temia as jactâncias futuras. Marílie precisava de um tempo para recordar sua qualidade de melindre cosmopolita. Era um pensamento pueril. Mas Marílie assim o quis, e agarrou-se tanto a ele que o fez.
Estava na capa de todos os jornais, mas nada que a França não mudasse. Por lá, era conhecida, mas não tanto quanto cá; e para lá foi. Deixou seus fãs, sem explicação e partiu.
Marílie muda-se para uma chácara que fica num outeiro. E lá passa seus primeiros quinze dias, a olhar tudo. Depois um pouco de andaças pelas ruas parisienses, compras, jantares e festividades.
Mas ela cultiva toda sua energia enquanto estiver por lá. Ninguém a perturba. Tempos depois a família mudou-se para a sua chácara e até hoje, todos lá vivem.
Todos os franceses sabem quem é ela. Mas ninguém fala mais nada. Apenas contentam-se com a cândida Marílie. Hoje diz ela que é mais feliz. Observa a vida, canta e lê - seu exercício predileto.
À tarde reúne alguns primos, seus irmãos e mais uns cinco amigos perto de um laguinho, e lá tocam, comem, contam histórias e vivem. Vivem como sempre quiseram. Conhecidos mas ignotos.
Ahh! Suspiro e ar puro, sobre os aplausos das árvores. De certo que ela sentiu falta de tudo isto um dia. Não da fama, mas da verdade. Apenas anunciou onde estava. E livrou-se de um peso na consciência.
Mas continuou lá. Paris foi a sua máxima inspiração. Marílie casou-se, teve dois filhos. E continuou sua vida assim, numa chácara francesa... E nada mais!