Eu nunca ganhei meu primeiro videogame como os outros meninos. Isso foi traumático. E mesmo agora, 12 anos mais tarde, conto isto a vocês com imenso pesar na memória. O comercial passou e n
ão tardei a pedir um a meu pai. Pedir não seria quase como ordenar. Eu não era de fazer pirraça, mas desta vez eu fiz. Era uma chance de me tornar bom em alguma coisa e recuperar meus amigos (não que eu os tenha perdido). E como todo pai fala, ele disse que iria perguntar a minha mãe. E como toda mãe fala, eu só iria ganhar se me comportasse.
É tão difícil cumprir ordens! Enfim voltei à vida em sociedade e fui comer mais algumas amoras para refrescar o cérebro. Depois, passei à casa de Jordânia, minha melhor amiga, e sentamos nos beirais da varanda a conversar horas a fio. Já estava de tarde e minha mãe foi me chamar. Despedi-me de Jordânia e corri para casa. Mamãe ia sair e deixaria minha irmã e eu aos cuidados de Tia Perpetua.
As ordens me foram claras. Posso simplificá-las como sendo: Não faça nada que você faria normalmente e, sobretudo, não mecha com o cachorro. Mas não adiantou, se passaram 20 segundos e eu estava entediado. Os meus amigos tinham saído. Jordânia e Ana Júlia estavam estudando junto de Tia Perpétua, e eu estava ‘sozinho’. Mas nada que um bom e novo amigo canino.
O nosso cachorro não era bem nosso, uma amiga da minha mãe estava viajando e deixou-o lá em casa. Fui até a garagem onde ele estava gentilmente hospedado e abri a porta. O cachorro estava dormindo, mas eu não. Cheguei bem perto dele, mas decidi o deixar em paz quando achei minha bola de basquete. Para pegá-la, precisava passar pelo cachorro. Com todo o cuidado do mundo, dei um pulinho sobre Bob (é, era o nome do cão), mas na volta, o pé esbarrou nele. E eu cai! A bola também e bateu na cabeça de Bob.
Eu corri, corri como vocês não imaginam. Tive a nítida impressão de tratar-se de um urso e não de um cachorro!
Subi numa das árvores lá de casa, que até hoje, não sei quais frutos davam. Fiquei ali por horas ouvindo Bob latir. Estava anoitecendo, ele cansou-se e foi dormir de novo. Fiquei tranquilizado até notar que eu não sabia descer e estava escurecendo. Mas eu gritei. Gritei bastante. Tia Perpétua também me gritou bastante. Mas não ouvíamos um ao outro.
Mamãe chegou com o videogame e uma bronca. Eu consegui descer de modo mágico, mas que me rendeu uns arranhões estranhos. Fiquei nervoso quando soube que só iria poder brincar com o videogame no outro dia, então fui ver TV. Eu estava com muita raiva, liguei a TV em qualquer buraco e ela queimou! Resultado: Quem ganhou o meu primeiro videogame foi meu primo Pedro, o injustiçado de todas as histórias que chorou tanto por isto. O próximo só apareceu quando eu tinha 8 anos, e ainda era o modelo antigo.
2 comentários:
Nossa! Que historia. Deu até um pouco de pena.
Muito legal!beijos,chica
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